Retina Cirúrgica

A retina é uma fina camada de tecido da porção interna e posterior do olho que contém as células responsáveis pela visão.

A MÁCULA

A mácula é a área de um a dois milímetros que se localiza no centro da retina. É aqui que existe a maior concentração de células visuais. Por isso, a mácula é a responsável pela visão mais fina  como a leitura, a escrita ou a condução, as áreas circundantes da retina são responsáveis pelo restante campo visual. O desenvolvimento de membranas epiretinianas e o buraco macular, são as duas doenças que mais frequentemente a podem afetar.

 

MEMBRANA EPIRRETINIANA

O que é?

A membrana epirretiniana é um tecido anormal que cresce na superfície da mácula (parte da retina responsável pela visão central) provocando distorção e perda de acuidade visual.

Como é causada?

A maioria é de causa desconhecida ou idiopática. Podem, contudo, surgir secundárias a patologias oftalmológicas, nomeadamente retinopatia diabética, oclusões vasculares, miopia patológica, inflamação ou intervenções intraoculares.  O tecido anormal que cresce na superfície da retina contrai levando ao pregueamento e distorção da mácula.

Pode desenvolver-se nos dois olhos?

Ocasionalmente pode verificar-se a presença de membrana epirretiniana bilateral. A cirurgia de um olho não tem qualquer influência no possível desenvolvimento da membrana no outro olho.

Qual o tratamento?

Nas situações em que não há diminuição significativa da visão é recomendada a vigilância. Nas membranas que provocam diminuição da visão, o único tratamento eficaz é a cirurgia. Esta designa-se por vitrectomia e consiste na remoção do humor vítreo (gel que preenche as porções central e posterior do olho) e da membrana que está a preguear e a deformar a retina. A cirurgia pode ser realizada sob anestesia local ou geral. Habitualmente existe pouco desconforto no período pós-operatório. Nas semanas após a cirurgia são utilizados colírios (solução líquida) para facilitar a recuperação.

Qual o benefício da cirurgia?

A maioria dos doentes apresenta melhoria da visão ou da distorção provocada pela membrana. A melhoria da visão é difícil de prever, sendo gradual ao longo de semanas a meses. Alguns pacientes podem manter os sintomas, apesar da remoção completa da membrana e resolução da distorção macular. O reaparecimento da membrana é muito raro. Meses após a cirurgia é relativamente comum o desenvolvimento de catarata, pelo que os pacientes que são submetidos a uma vitrectomia devem estar cientes da possível necessidade de uma cirurgia de catarata no futuro. Complicações como hemorragia, infeção ou descolamento de retina são bastante raras.

 

BURACO MACULAR

O que é?

Resulta de uma tração tangencial induzindo a formação de um buraco na mácula. Com o tempo o buraco aumenta de tamanho e os seus bordos descolam.

O buraco macular induz diminuição da visão central, a qual, sem intervenção se torna, na maioria dos casos, irreversível.

Como se trata?

Trata-se com vitrectomia, a remoção do gel vítreo situado na cavidade posterior do olho, com posterior remoção da membrana limitante interna da retina da área macular, uma película de poucos micras de espessura que é 10x mais fina que um fio de cabelo. No final da cirurgia é necessário injetar uma bolha de gás para que os bordos do buraco se unam. A bolha de gás sobe, dentro do olho. Logo, para permitir a pressão necessária sobre o buraco é necessário um posicionamento rigoroso de cabeça para baixo, durante 3 a 8 dias.

O gás permanece 15 a 20 dias dentro do olho, às vezes mais ou menos dependendo do tipo de gás usado. Durante a reabsorção do gás vai ver uma grande bolha escura no seu campo inferior de visão, como se estivesse a olhar através de água.

Durante o tempo de reabsorção do gás é proibido viajar de avião.

 

DESCOLAMENTO DE RETINA 

O que é?

A retina é uma fina camada de tecido da porção interna e posterior do olho que contém as células responsáveis pela visão. O descolamento de retina consiste na separação da retina das restantes camadas que constituem o olho, levando à perda progressiva inicialmente da visão periférica e posteriormente da visão central se a mácula, responsável pela visão central e de detalhe, for afetada. Se não tratado, na maioria dos casos, leva à perda total, permanente e irreversível da visão.

Como é causado?

O descolamento de retina regmatogéneo é o tipo de descolamento mais frequente. É causado

por uma descontinuidade da retina, normalmente uma rasgadura ou buraco, que vai permitir que o humor vítreo (gel transparente que preenche as porções central e posterior do olho) se infiltre sob a retina descolando-a das restantes camadas. As rasgaduras ou buracos com descolamento de retina associado são eventos espontâneos, que não podem ser previstos, podendo surgir em qualquer pessoa. Com a idade o humor vítreo torna-se mais liquefeito, separando-se da retina (descolamento posterior do vítreo). Na maioria dos casos, esta separação do vítreo da retina ocorre sem qualquer consequência. Não raras vezes o descolamento do vítreo pode lesar a retina, nas suas zonas mais frágeis ou em que há maior aderência entre o vítreo e a retina provocando buracos, rasgaduras e posteriormente o descolamento de retina.

Pode haver também descolamentos da retina sem descontinuidades da retina. Esses casos, menos comuns, a retina descola porque ou é tracionada a partir da cavidade vítrea (descolamentos tracionais) ou porque existe passagem de líquido para o espaço sub-retiniano a partir dos vasos da retina (descolamentos exsudativos).

Quais os fatores de risco?

Os principais fatores de risco para ocorrência de descolamento de retina regmatogéneo são a miopia, degenerescência da retina periférica (degeneração lattice), cirurgias oculares prévias e traumatismos. As principais causas de descolamentos de retina tracionais são a retinopatia diabética e as inflamações intraoculares com atingimento do humor vítreo. Os descolamentos exsudativos podem estar presentes em casos de hipertensão arterial grave, malformações ou tumores oculares, doenças inflamatórias ou infeciosas.

Quais os sintomas?

O aparecimento súbito de pontos, círculos, linhas de cor escura móveis, perceção de moscas volantes ou aranhiços acompanhados ou não de luzes tipo faíscas, flashes ou relâmpagos, geralmente corresponde ao descolamento posterior do vítreo. No entanto, estes poderão ser os sinais iniciais de um descolamento de retina. Uma sombra ou cortina escura que progride da periferia para o centro corresponde habitualmente ao descolamento de retina. A taxa de progressão depende da idade, da localização, número e tamanho das rasgaduras. Em qualquer das situações, os doentes devem ser observados sob dilatação pupilar por um oftalmologista, rapidamente após o inicio dos sintomas.

Como prevenir e tratar?

Quando uma rasgadura é detetada antes do desenvolvimento do descolamento de retina, esta deve ser tratada com laser ou crioterapia (aplicação de frio) para prevenção do mesmo. Quando já existe descolamento de retina é necessário um tratamento cirúrgico. Assim, quem sofre de moscas volantes ou flashes de luz, deve procurar observação urgente por um oftalmologista.

 

TRATAMENTO

O tratamento depende do tipo de descolamento de retina, da sua localização e extensão, determinadas mediante uma avaliação detalhada pelo médico oftalmologista.

O descolamento da retina trata-se através de cirurgia. Na maioria dos casos a opção cirúrgica é a  vitrectomia e menos frequentemente a cirurgia extra-ocular. A vitrectomia consiste na remoção do humor vítreo, eliminando a tração sobre a retina, com posterior drenagem do líquido subretiniano e tratamento de todas os defeitos da retina presentes. No final do procedimento o olho é preenchido com gás ou óleo de silicone. Ao longo de algumas semanas, o gás vai sendo absorvido e substituído pelos fluídos naturais do olho. Durante o período de absorção, a visão permanece prejudicada, melhorando progressivamente à medida que o gás é absorvido. O óleo de silicone está reservado para descolamentos de retina complexos e só pode ser removido num segundo procedimento cirúrgico. A vitrectomia pode ser realizada sob anestesia local ou geral. Habitualmente existe pouco desconforto no período pós-operatório. Nas semanas após a cirurgia são utilizados colírios para facilitar a recuperação. A indentação escleral ou cirurgia extra-ocular, apesar de menos frequentemente aplicada, pode ter indicação, isoladamente, em doentes mais jovens, descolamentos mais localizados e recentes associados a rasgaduras bem identificadas e acessíveis ou então de modo combinado à vitrectomia, em casos mais complexos e de pior prognóstico. Na indentação escleral é fixada uma ou mais fitas de silicone externamente à esclera (zona branca do olho). Estas fitas servem para empurrar (indentar) a esclera para dentro contra a rasgadura ou buraco da retina, fechando, assim, a ruptura ou reduzindo o fluxo de fluido que passa através dele, reduzindo consequentemente o efeito de tração vítrea, permitindo desse modo a aplicação da retina.

O efeito colateral mais comum resultante da colocação da fita de silicone é a indução de miopia (pior visão para longe).

Nas semanas seguintes é essencial um posicionamento adequado, conforme a técnica usada ou características do descolamento, sendo usual a indicação para se após a cirurgia são utilizados colírios para facilitar a recuperação.

Qual o prognóstico?

Os resultados visuais e cirúrgicos são melhores quando o descolamento é detetado e tratado precocemente e antes de envolver o centro da retina, a mácula. No entanto o nível de recuperação da visão não é completamente previsível. O cumprimento do posicionamento aconselhado pelo médico após a cirurgia é fundamental e aumenta a probabilidade do sucesso do tratamento. Descolamentos de retina com muito tempo de evolução têm pior prognóstico e podem necessitar de múltiplas cirurgias.

 

CUIDADOS HABITUAIS APÓS UMA CIRURGIA DE RETINA

Evitar movimentos com a cabeça, ler ou olhar pela janela enquanto se viaja de carro ou comboio; evitar fazer esforços ou desporto. Se a posição da cabeça o permitir (dependendo da patologia), ver televisão pode ser permitido.

Adicionalmente, deve respeitar as seguintes instruções pelo menos nos 15 dias seguintes:

  • Não irritar o seu olho, evitar contacto com sabão, champô, água da piscina ou do mar.
  • Evitar apanhar resfriados ou contacto com pessoas infetadas.
  • Uma infeção ocular é uma complicação muito severa que necessita de tratamento urgente ou emergente.
  • Se o seu olho ficar muito vermelho ou com dor, deve contactar o seu cirurgião imediatamente.

Na vitrectomia com tamponamento com gás a sua visão melhora progressivamente e durante o tempo de reabsorção do gás é proibido viajar de avião!

Se não ocorrer uma melhoria do seu campo visual contacte o seu médico.

A visão após uma cirurgia à retina pode demorar 3 a 6 meses a estabilizar.

Aguarde até 6 meses, conforme a indicação do seu médico, para renovar a prescrição dos óculos.


-Dr.ª Bernardete Pessoa-

Retina Cirúrgica